22 de dez de 2013

Sete Dias

Quarto dia
Ouvir aquilo fez meus músculos se enrijecerem. Eu levantei quase que imediatamente e desci as escadas em pulos. Aquilo não poderia estar acontecendo. Cheguei à porta e quase arranquei a maçaneta de tanto girá-la. Depois, com raiva, dei muitos socos na madeira rústica.
Justin segurou meus braços para que eu parasse de bater na porta. Não sei se fiquei com raiva por ele ter feito isso, ou agradecida. Acho que um pouco dos dois.
Ele soltou meus pulsos e nos encaramos. Ele deve ter ficado muito frustrado por estar preso comigo. Mais do que eu estou frustrada por estar presa com ele. Sua expressão estava cansada e seus olhos um pouco tristes. Mas que raios de mania de ficar tentando interpretar o sentimento das outras pessoas...
Sem dizer nada, subi para o meu quarto. Encostei a porta (minha mãe não deixa a chave comigo depois que comecei a sair com Max, mas eu sou grata a ela porque pelo menos agora eu tenho minha porta), e fiquei vendo a neve cair pesadamente pela janela.
Depois dizem que eu sou louca por não gostar de neve. Eu odeio neve. Ironia – ou muito azar? – eu morar no Canadá. Mas fala sério, qual é a mágica de gelo caindo do céu? De ter que sair de casa encapotada de tanta blusa, ter de secar o cabelo antes de sair para ele não congelar (literalmente) e de quase cair no meio da rua por causa do chão escorregadio?
A noite já chegava e eu me enrolei no meu cobertor rosa, na cama, abraçando meus próprios joelhos. Não sabia de Justin, não sabia de Max, não sabia de minha mãe, não sabia nem de mim mesma.
E de repente, no meu silêncio obscuro, ouve um estalo e a luz se apagou. Tudo se apagou. Duvido que havia energia em Stratford àquela hora. É isso que acontece em tempestades de neve.
 O susto que levei foi tão grande que antes que eu pudesse me impedir, soltei um grito.
Coloquei a mão trêmula sobre a boca. Por que as piores coisas têm de acontecer nos piores momentos?
Fiquei parada na cama, tremendo um pouco. Ouvi alguns passos rápidos chegando cada vez mais perto e no mesmo instante me arrependi de não ter ido para a fazenda de minha vó.
Minha visão já estava se adaptando à pouca luz, de modo que eu vi a silhueta de Justin. Nunca fiquei tão feliz de vê-lo. Aliás, eu nunca fiquei feliz de vê-lo, mas que se dane. Ele estava lá e isso me acalmou.
- McDonald, está tudo bem? – ele disse, a voz apreensiva.
- Bieber... – minha voz falhou e ele se aproximou hesitante – Está. – disse com mais convicção. – Está sim.
- Tudo bem. – ele disse se virando para a porta.
- Bieber? – chamei baixinho.
- Oi?
- Fica aqui. – falei ainda mais baixo.
Ele me olhou com dúvida, diria até que com curiosidade, e se aproximou ainda mais. Ele sentou na beirada da minha cama, quieto.
E então eu fiz uma coisa muito patética. Eu comecei a chorar. Como se eu já não tivesse chorado o suficiente.
Justin me olhou e ficou mexendo as mãos, como se não soubesse bem o que fazer. Minha visão estava meio embaçada, mas eu consegui vê-lo tirando os sapatos e posicionando-se do meu lado na cama. Sorte que ela é de casal.
- É por causa dele, não é? – ele perguntou.
- É por causa de tudo, Bieber. – disse em meio as lágrimas.
Ele se levantou rapidamente e começou a procurar algo no meu quarto. Ele abriu o closet, minhas caixinhas e tudo o mais, mas eu não me importei. Depois de uns segundos e muitas lágrimas, ele se sentou novamente.
Vi que ele estava segurando um celular preto em mãos. O celular de Max.
Juro que quando minha mãe chamou Justin para me vigiar, pensei que ela queria que ele cuidasse para que eu ficasse bem, mas não ficar jogando na minha cara que eu fui traída e que meu chifre deve estar tão grande que ele nem passa na porta. Se bem que se fosse ela no lugar do Bieber ela faria a mesma coisa...
- Olha só. – ele disse destravando o celular e consequentemente exibindo a loira siliconada.
Isso fez com que as lágrimas descessem mais depressa e em maior quantidade.
Ele foi para o menu direto nas mensagens.
- Vamos ver... – ele disse e escolheu uma aleatoriamente. – Bebezinho voxê é a coisinha mais fofinha desse mundão! A Bibi ti ama... – ele leu com o cenho franzido. – Ótimo, esse cara passa o rodo até no berçário.
Ele continuou rolando até parar em outra.
- Eu amar vucê! Vucê amar mim? Beijo, beijoka, beijão bem molhados e manchados de batom da Marcela. – Justin riu – Analfabetas também?
Isso me fez chorar mais, porque eu não sabia em que quadro me encaixava.
Ele olhou para mim e disse:
- Vamos passar para as fotos.
Eu, não sei por qual motivos, me aproximei do celular. Ele em boates com loiras e morenas o rodeando, fazendo biquinho. Vulgares.
- Elas estão fazendo cover de pato? – ele perguntou e passou para a próxima foto.
Max na beira de uma piscina com uma ruiva de biquíni.
- Ela deve ter tanto silicone que se entrar na piscina não afunda.
Justin, vendo meu estado, parou e desligou o celular.
- Desculpa. – ele disse – Eu pensei que ia ajudar.
Eu achei engraçada algumas coisas, mas não o suficiente para parar com o meu choro e minha dúvida de que em que lugar eu me encaixaria. Porém, de qualquer forma, ele merecia pelo menos um “obrigada”.
E então, como eu não consigo chorar e falar ao mesmo tempo, eu fui parando e dando umas fungadas.
- É só que eu fico imaginado em que categoria eu pertenço na coleção de Max. – disse baixinho e meio rouca.
- Você não se encaixa em nenhuma dessas categorias. - fechei os olhos esperando ele falar em qual categoria eu estaria.  – Você é mais do que isso.
Sorri forçada e sem querer deixei uma lágrima escapar.
- Já sei que esse assunto te deixa triste. – ele disse baixinho – Mas só para constar: Max parece nome de cachorro.
Tentei obrigar minha boca a sorrir, mas não deu certo. Funguei mais um pouco.
- Então – ele disse desconfortável – como sua mãe, uma nutricionista, se sente por ter o sobrenome McDonald?
- Ela fica louca da vida. – disse em um tom mais normal, e dessa vez, sem lágrimas – Ela inclusive não atende quando a chamam de Mrs. McDonald. - dei de ombros – Acho que a única vez que comi um lanche desse fast food foi quando eu era criança. Eu até ganhei uma boneca.
- E como você se sente? – ele perguntou, enfatizando o ”você”.
- Quando não me chamam de gordurosa? – perguntei fazendo com que ele risse fraquinho. – É normal. Mas eles também me chamam de DuckDonald.
- Mas o Pato Donald é legal.
- Se ainda fosse o Tio Patinhas para eu ser milionária...
Pensei em voz alta. Mais que droga. Eu pelo menos já conseguia falar, e isso sem dúvidas é uma conquista e tanto.
Mas falar com Justin...
É, não sei, diferente. E encantador. Com certeza encantador.  
- Às vezes dinheiro não é tudo que importa. – ele disse ao falar o negócio do Tio Patinhas.
- Não. – disse – Nem vem. Todo mundo perto do Natal vira filósofo.
- É a magia do Natal, baby. – ele disse, piscando um olho para mim.
- Ta, mas cadê o Papai Noel me entregando os presentes que pedi na cartinha? Eu sei que estou velha, mas...
- McDonald, não compare isso com o comercial da Coca-cola.
- Beatrice. – eu disse. – Pode me chamar de Beatrice.
- Justin, então. – ele deu de ombros.
Endireitei-me na cama e afofei o travesseiro. Ficamos em silêncio, até eu quebra-lo.
- Você acha que a energia volta logo?
- Não sei. – ele disse – É tão ruim ficar na minha presença? – ele disse baixo e não pude distinguir o que seu tom sugeria. Ele estava brincando ou falando sério?
- Não. – disse, mas como soou meio rude complementei: - Eu não gosto do escuro.
- Eu queria que fosse hoje fosse um dia de verão.
- Por quê? – perguntei.
- Porque poderíamos ficar à luz das estrelas.
Parecia uma coisa muito romântica, tanto que eu corei.
- Já te vi lá, conversando com elas.
Agora estou roxa. Posso apostar que estou. Eu não sabia que alguém sabia que eu falava com as estrelas. Mas apesar de tudo, eu acho que falo com algo maior que as estrelas. E eu não estou falando da Lua. Eu acho que por trás de tudo há a minha estrela. Minha estrela guia.
- Isso era segredo. – falei baixo.
- Mas e então, o que você falava com elas?
- Um monte de coisas. Eu sou bem tagarela às vezes. Mas quando estava com problemas eu corria para lá.
- E agora? – ele perguntou.
- E agora o quê?
- Você não tem as estrelas.
- É... – que resposta patética!
- Pode falar comigo se quiser. – ele disse.
Eu respirei fundo e cheguei à conclusão de que era melhor falar com um Bieber do que não falar com ninguém.  Mas eu realmente pensei que eu iria falar. Santa ingenuidade. Qualquer coisa relacionada ao Max tocava a cratera no meu peito. E fazia as lágrimas rolarem.
- Eu sinceramente acho que se você contar vai doer menos. – ele disse, apesar de um certo lampejo no seu olhar que dizia que ele já sabia de tudo. – Mas se não quiser, não precisa.- fez uma pausa - É para o seu bem... – ele murmurou baixinho.
Olhei para ele, ou mais especificamente para suas mãos que estavam indo de encontro ao meu cabelo. Ele se deteve ao perceber meu olhar.
- Posso te contar uma coisa? – ele perguntou e eu fiz que sim com a cabeça. – Bom – ele continuou – eu também já tive meu coração partido. Acho que todos já tivemos.
Ele respirou fundo.
- É diferente para cada um, mas ao mesmo tempo é igualmente doloroso. O meu coração ainda dói.
- Mas como você consegue parecer tão bem? – perguntei baixo.
- Sei lá. Depois de anos gostando de uma mesma garota, acostumei. Eu sempre esperava que aquilo que diziam sobre “outros amores virão” acontecesse comigo. Mas nunca aconteceu. Às vezes eu penso que ela é a mulher da minha vida, mas às vezes eu penso que a mulher da minha vida não poderia ser tão cega. – ele disse e eu compartilhava da dor que ele carregava na voz.
A garota partiu o coração dele e eu partiria a cara dela. Idiota!
- Quer falar sobre Max agora? – ele perguntou com a dor ainda em seus olhos, apesar da típica voz gentil e educada.
- A minha história começou há um ano atrás. Eu o via no ponto de ônibus e ele sempre me dava umas olhadas sugestivas. E... é isso. – disse, sabendo que havia muito mais a ser partilhado. Mas para ser sincera minha história com ele era bem supérflua. 
E então nos encaramos. Ele foi se aproximando devagar e eu também fui me aproximando dele. Foi instintivo. E no segundo seguinte Justin estava me beijando e eu estava correspondendo. E era errado. Estávamos errados por nos beijar assim, sem nos gostar. Mas pior que o bendito beijava bem e eu não tive coragem de separá-lo de mim. E não tive coragem de perguntar se ele também sentiu algo se remexendo dentro dele como eu senti...
----
To viajando, mas até parece que eu ia deixar vocês sem capítulo! 
- 8 comentários, por favorzinho? 
Boas festas. 
Beijos, 
Audrey!

5 comentários: