24 de jan de 2015

Abrigo Da solidão - Short Fic

O vento constante, trazendo respingos gélidos de pequenas gotas de chuva não impediram Justin de sair de casa naquela tarde, o céu parecia chumbo moldado em nuvens densas como a própria fumaça que Justin soltava de seu cigarro, indicando talvez uma nova queda de chuva costumeira naquele comecinho de inverno em Madrid.
Em meio a tantas pessoas naquela imensa capital, ele se concentrava no caminho até o bar onde passava dia-após-dia, noite-após-noite. Era um homem confuso, vivia sem saber o motivo daquilo, o motivo da vida, do
trabalho, e das pessoas. Não estava deprimido por perder tudo, pois nunca tivera nada para perder, apenas estava deprimido, e se convencera de que na verdade o que sentia, não era realmente depressão em si, era apenas o vazio, o vazio constante que nunca fora preenchido, mas mesmo não admitindo todos os fatos ligavam a sua deprimencia.
Sua vida se rodeava a putas e whisky, e era tudo de que ele se lembrava desde que tinha 16 anos. E mesmo que soubesse que tudo de mais enjoava, ele não conseguia desvencilhar-se das putas e bebidas por onze anos, era sua a vida, era o que ele era, e se recusava a ser como os outros, montar uma família e fingir estar feliz. Se tivesse que fingir ser feliz, fingiria com as putas, e as bebidas, não preso em uma vida que não era sua.
Puxou um banco no balcão, o garçom que sempre lhe lançava uma piadinha, não estava essa noite, o que não lhe importou realmente. Acendeu outro cigarro, pediu um whisky do mais barato.
O bar estava quase vazio, melhor assim, ele pensou, gostava de quando tinha apenas alguns gatos pingados a sua volta, assim evitava ter de lidar com falsos bêbados, e falatório alheio. Gostava de beber em silencio, era um bêbado calado, até que uma puta se aproximasse, galanteador e boa pinta, sempre conseguia ganhar no papo.  
O garçom encheu o copo, ele puxou um pequeno cinzeiro ferrado pra perto de si, quase cheio do bitucas de cigarro. Tomou seu whisky, hoje não queria saber de trepar, queria mesmo era beber até ter vontade de pegar no sono ali no balcão.
Do outro lado do balcão a pelo menos quatro bancos, uma moça pedia sua terceira cerveja, uma holandesa, tão confusa na vida quanto o próprio. Ex-atriz de peças filmes fracassados, ela tentava buscar também na bebida uma resposta para seu então, fracasso.
 Ele mal percebia que ela sempre o olhava de relance, via toda a sua cena, e seus atos costumeiros. Sempre entrava no bar sem olhar em volta, sem olhar a movimentação, seu olhar era sempre fixo ao seu banco, no qual nunca estava ocupado, ele puxava o banco, mal sentava e pedia um whisky, depois do primeiro copo embarcava em um estranho transe no qual nada o separava do fundo daquele copo com cubos de gelos trincando no mesmo, era como se ali houvesse a resposta para sua estranha melancolia, como se na bebida algo o fizesse ter vontade de sair de seu vazio cotidiano.
Aaghie¹ nunca tivera coragem de sentar um pouco mais perto, talvez para puxar um assunto. Mas pensava sempre que ele podia pensar que ela era como aquelas putas que vez ou outra se aproximavam, e que ela se aproximava com segundas intenções. Talvez até o tivesse desejado, talvez até tivesse o querido em sua cama no fim da noite, mas não queria que ele a tratasse como mais uma. Mas ela era mulher vivida, com vinte e sete anos, já sabia o que queria, já sabia que homens como ele não valiam tanto, mas só por uma vez, queria tira-lo de sua redoma, queria ultrapassar aquela proteção que ele mantinha ao seu redor, com aquela aparência de quem não é lá de muitos amigos. 
Depois de terminar sua cerveja ela pulou um banco, agora apenas três bancos os separavam, o que não era muito, se ele só por um segundo, virasse para ela, e se desligasse do seu segundo copo de whisky, ele poderia vê-la, notar seus traços diferentes, seu cabelo flamejante, suas sardas escondidas, sua profunda íris cinzenta, e seu olhar de quem não esperava mais nada da vida.
Aaghie, pediu mais uma cerveja, já sentia sua embriaguez, seu sangue circulava álcool, mas aquilo não lhe dava a coragem que lhe faltava para falar com o homem.
— Posso não olhar mas sei quando estou sendo observado. —Ele sorriu matando seu whisky, ela assustada, virou para sua latinha tomando um gole, mal percebia que o encarava casualmente.
— Você chama atenção. —Confessou— Acho que ver você é como me olhar no espelho
— ééé? —indagou — Você deve estar na merda. Pra se espelhar em uma merda assim!
— Digamos que sim. —Ela murmurou, ele olhou para os bancos que os separavam, depois olhou novamente a mulher que o observava, sabia que não era como as putas, pois as que ele levava para sair tinham má reputação, e já se via logo que era uma puta, mas Aaghie, Aaghie se vestia bem, levando e conta de que suas pernas e braços estavam cobertos, aquilo era um grande começo. Aaghie tinha cheiro de lavanda, não de perfume adocicado, que talvez em tempo tardio um dia ele descobrisse.
— Posso saber o nome da minha observadora? — Perguntou após pedir outro Whisky
— Aaghie.
Aaghie, MAS QUE DIABOS DE NOME É ISSO? Ele se perguntou, divertido por dentro, era a semana de nomes estranhos aquela, mas não deixou que essa risada interna escapasse, seu nome soava como um hambúrguer, ele pensou.
— O que te trás nessa espelunca?
— É um bom lugar pra desempregados como eu. —Ela disse casualmente.
— Certo.
— E você?
— É um bom lugar pra perdidos.
— Te entendo.
— Aqui se acolhem os desabrigados.

E Aaghie entendia completamente o que ele tentava dizer com aquilo, o entendia mesmo ele dizendo apenas meias palavras. Talvez aquela fosse sua deixa, aquele fosse momento de ir embora sabendo que aquele era um bom homem, e que partir seria a melhor escolha, pois se não partisse naquele momento, partiria no dia seguinte saindo de sua cama, talvez aquilo fosse um começo de um flerte, e Aaghie não estava pronta para aquilo, sabia que no fim, ele acabaria outra vez sentado em um lado do bar, e ela do outro, fingindo não ter tido aquela conversa, ou tendo uma conversa melhor, ou aproximando o banco. Era inúmeras as alternativas dos talvez, e que ela não arriscaria. 

Nota de rodapé: 
Aaghie significa Agata em Holandês. 
Oe, aqui é a tia que a escreve Ultraviolence, sei que estou um tempinho sem postar mas ainda essa semana eu posto a continuação, mas logo indo ao meu post de hoje, vou explicar o motivo dessa Short Fic. Como eu estive lendo Hollywood (de Bukowski) e vi o começo do filme Barfly, roteirizado pelo meu  amado Charles B. eu escrevi essa fanfic a umas duas semanas em um momento em que eu tentava sair de um bloqueio. E acabou saindo isso, essa fanfic não é da categoria original, esta na categoria do Justin pois ele é o personagem principal. A fic talvez será composta apenas por três capítulos ou cinco no máximo. Caso queiram falar comigo, podem chamar no whatsapp (22 999831568). Não mordo mas não sou lá uma pessoa que vai te fazer querer conversar mais do que apenas um "eu leio sua fic" kkk, brincadeira. Não sou a pessoa mas legal do mundo (nem legal) mas chamem lá, não tenham medo. 

2 comentários:

  1. Divulga pra mim florzinha

    fanficsdanina.blogspot.com

    Nuss quanta perfeição suas Fic

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  2. Continua, tava me empolgando ai acabou poxa 😭

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